domingo, 14 de novembro de 2010

DVD - 61 "MAFAMUDE".

ZECA AFONSO - VILA NOVA DE GAIA!

      Autobiografia do ZECA
     As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia-dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas. O velho Flávio Rodrigues continuava a ser o «Mestre», venerado por um pequeno discipulado de guitarristas e acompanhadores que com ele se reuniam numa pequena casa do bairro de Celas onde acabou os seus dias minado por uma doença fatal.
     Do convíviocom esse homem torturado ficou-me a recordação de uma instabilidade impotente e resignada ao peso das terríveis limitações materiais que acompanharam até ao fim o lento processo destruidor do nosso companheiro.
    Seguiu-se um período de promoção fadística em que acabaram por me colocar no palanque das estrelas de primeira grandeza. Outros acompanhadores (peritos e sisudos) e outras oportunidades em viagens promovidas pela Tuna e pelo Orfeon. São dessa época as minhas idas a África e as tournées através da província. Recordo-me de ter participado na inauguração de uma auto-maca, para os bombeiros voluntários de Pádua e de, por diversas vezes, ter dormido ao relento nos «pinhais do rei».
     Nestas andanças percorri as estradas do país esticando o polegar a quem passava sobre rodas, ou, mais afortunadamente, pagando com fados e canções a hospitalidade com que me recebiam em suas casas, pobre, ricos e fidalgos arruinados.


     Por motivos económicos fui forçado a deixar Coimbra antes de concluído o curso e a leccionar em colégios particulares. O contacto concreto com a situação profissional no sentido mais amplo foi-me pouco a pouco endurecendo.
    Em Coimbra as coisas mudavam lentamente. Novas remessas de estudantes, menos pitorescos mas mais conscientes do que os do meu tempo, mais devotados aos problemas que fatalmente surgiam num meio sufocado por tradição, as mais das vezes inútil, intentam, à semelhança do que já outras gerações haviam feito, romper declaradamente com o bafio, pôr de parte a quinquilharia passadista do velho romantismo do «Penedo», realizar ao nível associativo uma modernização da vida académica dentro dos limites a que os forçava o estreito meio geográfico em que viviam.
    Lá longe no Algarve, chegavam-me os ecos destes acontecimentos. Embora em doses insignificantes, e já um pouco tarde, tentei acertar o passo por esse ritmo coordenador de energias há muito desencadeadas, mas sem o sentido de oportunidade de que careciam para se converterem em acção positiva e fértil.
    Nessas pequenas descobertas adquiri a noção do tempo perdido, abominei a cidade onde a minha alegria de viver inutilmente estiolara ouvindo «tanger os bordões da viola», calcorreando ruas, frequentando as casas de prefo, bebendo bicas nos cafés da baixa ou escutando, mais por imposição do que por prazer, as arengas dos teóricos da bola.


    Nalgumas andanças por Lisboa tomei esporádico contacto com outros meios estudantis. Rapazes novos, dinâmicos, combativos, de pés bem assentes na terra, com os quais, embora de uma forma efémera, muito me foi dado a aprender. Ganhei amizades, rejuvenesci e sobretudo senti na carne a urgência de alguns problemas que até então mal tinham afectado a minha maneira de ser.
    Numa disposição de espírito muito diferente da que me levara a procurar fora de Coimbra uma largueza de horizontes que a cidade me negara, renovei um pouco o meu conhecimento dos homens e dos lugares. O Algarve foi por então a minha pátria adoptiva. Nos sapais da ria de Faro e nos areias do sotavento algarvio passava eu as melhores horas do dia junto do barco simbólico que o António Barahona salvara do esquecimento e da decomposição.
   Só muito acidentalmente cantei. Em casamentos, baptizados, convívios efémeros, que sei eu? Como de resto sempre o tinha feito. As baladas surgiram como um produto anónino desse conjunto de circunstâncias, mas, também, com o tempo, sempre um interlocutor forçoso contava comigo. Mais do que simples forma musical vagamente lúdica ou combativa definiam uma atmosfera pré-existente nas coisas presentes e passadas. Nada mais do que um folclore de segunda ordem pronto a servir.
    O Rui Pato ajudou-me nas situações de maior responsabilidade perante públicos mais exigentes ou nas gravações. Comecei por cantar o que me vinha à cabeça, nas praias do sul ou em curtas deambulações por terras de província onde ampliei, fora do ambiente universitário, as minhas experiências mais duradoiras.
   A mais recente pausa da minha vida veio cortar de forma imprevista as esperanças dum recomeçar.
   Sem saber como, apesar das inevitáveis demorar burocráticas achei-me em Lourenço Marques com um lugar de professor. Mais umas baladas (as últimas) e uma transferência para a Beira. Novo lapso e uma última oportunidade que me veio através do TAB (Teatro dos Amadores da Beira). Cardoso dos Santos empenhava-se num prazo mínimo de tempo em preparar a encenação de “A excepção e a regra” de Bertold Brecht. Faltava musicar e adaptar as canções que figuravam na tradução de Francisco Rebêlo. Assim fiz. Depois disto a mudez ou a decadência. Não sei bem.
Cidade da Beira . 1967


Novelas 14 de Novembro de 2010







quarta-feira, 27 de outubro de 2010

DVD - 50 "LEMBRAR ADRIANO"

T.A.S.
Grupo de Teatro Amador de Sandim

APRESENTA.
Dia 13 de Novembro de 2010, (sábado) pelas 21:30.



...Na passagem de mais um aniversário da morte de Adriano Correia de Oliveira; vamos “Lembrar Adriano” com: Carlos Andrade, José Silva e João Teixeira.

Dia 13 de Novembro de 2010.

Apresentação.

Adriano Correia de Oliveira.
Já todos nós ouvimos o provérbio: “Muito bem se canta na Sé, mas é para quem é”. Ora, este “dito” ajusta-se perfeitamente à figura que, hoje, queremos lembrar. Aquela voz bonita de Adriano Correia de Oliveira não podia deixar de cantar na Sé. E cantou! Cantou na Sé e por toda a parte. Adriano Correia de Oliveira muito embora seja tido como Avintense, em boa verdade, ele nasceu na Rua Formosa, na cidade do Porto, em 9 de Abril de 1942. Chegou a Coimbra apenas com dezassete anos, para frequentar o curso de Direito, na Universidade. Com o entusiasmo próprio dos dezassete anos, logo começou a frequentar as tertúlias académicas, a boémia coimbrã e facilmente entra nos movimentos estudantis. De uma vivacidade natural e com uma voz lindíssima, depressa se torna o menino bonito do Orfeão Académico. Canta o fado (o fado tradicional de Coimbra), gravando um ou dois discos. Entretanto, a este tempo, em Coimbra, sentia-se já os ventos de mudança que sopravam.



José Afonso, que na década anterior fora um dos mais apreciados cantores do fado de Coimbra, andava, agora, por lá, de viola em punho, a cantar uma espécie de cantiga trovadoresca, que rompia com a praxe e a tradição Coimbrã. Era uma cantiga nova, que exaltava e servia os ímpetos libertários que, àquele tempo, fervilhavam e uniam os movimentos estudantis.



Adriano Correia de Oliveira
não se fez rogado. Logo se entregou de alma e coração a essa nova corrente musical, a esse novo movimento, a essa nova causa. E surge, então, as mais bonitas trovas que a época produziu; lembremos, por exemplo, “A trova do vento que passa”. Cultiva a cantiga de intervenção e, verdadeiro amante da liberdade, anda por todo o lado, a par com outros cantores, a denunciar a repressão e a prepotência. Insurge-se contra a guerra no Ultramar e ouvimo-lo, então, cantar “Menina dos olhos tristes”. Embrenhou-se também na recolha, selecção e gravação de cantigas do nosso folclore, quer do Continente quer dos Açores e deixa-nos “Morte que mataste Lira”. Muito novo ainda, no auge da sua capacidade criadora, é acometido de uma doença imparável. Morre aos quarenta anos, no dia 16 de Outubro de 1982. Adriano Correia de Oliveira cantou poesia. Não sei se escreveu algum poema. Mas a sua vida, todavia, é a mais eloquente prova de que a melhor poesia não é a que se escreve é a que se vive.
Texto de: José Silva

sábado, 23 de outubro de 2010

QUE FENÓMENO!

 bullying


Os Direitos das Crianças, dos Jovens e dos Adultos, a sua protecção, são hoje reconhecidos na lei, contudo continuamos a assistir a atropelos diários dos direitos fundamentais.
Com o começo de um novo ano lectivo, é certinho que o descanso dos pais e encarregados de educação acabou.
Vindo de arrasto das escolas citadinas, projectam-se nas freguesias e o bullying, é uma realidade nova, é um "fenómeno" crescente na nossa sociedade e aqui em Novelas, ao qual pais professores e a população em geral, têm vindo a demonstrar pouca preocupação.
Esta realidade está cada vez mais evasiva, quando devidamente entendida e transposta para fora, se torna bastante precária, quando não inútil.
Em Crianças e Jovens, nas escolas o bullying é feito pelos “espertos”.
Mas este "fenómeno" já não passa só pelos jovens. Nos adultos os grandes agressores são os nossos políticos, que nos estupram, psicologicamente, de uma forma ilegal, intencional e repetidamente. É um tipo de bullying  diferente, onde todos são iguais!
É só ligar a televisão e tirar as suas próprias conclusões...
Surge a indignação e a revolta, porque nos violentam tirando-nos tudo aquilo que temos direito.
As palavras mais ouvidas falam, de crise, corrupção, pobreza e de injustiça, onde a nossa humilde defesa termina, quando já nem podemos fazer uso dos direitos.
É só abrir os olhos e não nos deixarmos sofrer do complexo de invisibilidade!
Existe algo que aprendi, “Se o Velho pudesse e o Jovem quisesse, não havia nada que se não fizesse.”
Eliminar todos estes tipos de bullying é uma questão de querer e de poder.
Só assim teremos uma sociedade melhor.
 Novelas 23 de Outubro de 2010

Luísa Cruz




sexta-feira, 22 de outubro de 2010

DVD - 24 "JAIME CORTESÃO".

LEMBRAR O POETA!

Todas as Quartas-feiras de cada mês, das 21h30 às 23h, lembraremos um dos nossos sempre tão esquecidos poetas.
O José Alves Silva fará a apresentação.
Depois, todos nós nos recriaremos a dizer a sua poesia, entremeada por bonitas cantigas na voz e na guitarra de cantores amigos.
Apareça, venha saborear connosco, um porto Poças e dizer um poema!
 
Apresentação José Silva




Historiador português

Nasceu em Ançã, Cantanhede, em 29 de Abril de 1884; morreu em Lisboa em 14 de Agosto de 1960.
Formou-se em Medicina em 1909, depois de ter estudado em Coimbra, Porto e Lisboa. Foi professor no Porto de 1911 a 1915. Tendo sido eleito deputado em 1915, defendeu a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial onde participou como capitão-médico voluntário do Corpo Expedicionário Português, tendo publicado as memórias dessa experiência.


Francisco Carvalho




Com Leonardo Coimbra e outros intelectuais, fundou em 1907 a revista Nova Silva. Em 1910, com Teixeira de Pascoaes, colaborou na fundação da revista A Águia, e em 1912 dá início à Renascença Portuguesa, que publicava o boletim A Vida Portuguesa.  Em 1921, separando-se da Renascença Portuguesa, é um dos fundadores da revista Seara Nova. Em 1919 foi nomeado  director da Biblioteca Nacional, cargo que exerceu até 1927.

Ana Santos



 Devido a ter participado numa tentativa de derrube da ditadura militar foi demitido, exilou-se acabando por viver em França, donde saiu em 1940, devido à invasão daquele país pelo exército alemão. Foi para o Brasil, passando por Portugal, onde foi detido por um curto espaço de tempo. 
No Brasil residiu no Rio de Janeiro, tornando-se professor universitário, especializando-se na história dos descobrimentos portugueses e na formação do Brasil. Em 1952, organizou a Exposição Histórica de São Paulo, para comemorar o 4.º centenário da fundação da cidade.
Regressou a Portugal em 1957.

Francisco Carvalho



Mais um ano de poesia e música na UNICEPE.
Porquê!?
No meio de tanta manipulação e controlo de pensamento, por parte dos grandes meios de comunicação, para inculcar subliminarmente na cabeça das pessoas a ideologia individualista neo-liberal, quase obrigatório se torna empreender uma espécie de “curso de autodefesa intelectual”, para nos defendermos de tais efeitos.

Director da UNICEPE – Rui Vaz Pinto





Eis, o sentido das noites de poesia e música na UNICEPE.
Contra a indústria cultural neo-liberal que, a toda a hora e em toda a parte, nos serve droga por cultura, demagogia por poesia, novelas por literatura;


José Silva



Contra a novelesca programação televisiva habilmente concebida para criar viciação, habituando-nos a ficar passivamente em casa, isolados do corpo social.


Francisco Carvalho



Contra a glorificação da mediocridade tão exibida como modelo virtuoso a seguir.
Lembremos os nossos tão esquecidos autores, consagrados na história cultural e cívica que nos identifica, mobiliza e nos dá este orgulho de ser PORTUGUÊS.
Eis, o sentido das noites de poesia e música na UNICEPE.


Maria de Lourdes



Francisco Carvalho



Maria de Lourdes



Fernanda Cardoso


Francisco Carvalho


   Luísa Meireles



Francisco Carvalho

 
Director da UNICEPE – Rui Vaz Pinto


José Silva

 
Fernanda Cardoso



Bruna Meireles



José Silva



Director da UNICEPE – Rui Vaz Pinto



    Francisco Carvalho

 
José Silva



Venha!... A cultura que liberta não pode vir da mão que escraviza.


Texto de José Silva

Novelas, 27 de Outubro de 2010




quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O HERÓI!





“pensamento… morto num dia”


Estes são extractos de um artigo publicado pela AARIS, Associação dos Amigos do Rio Sousa Penafiel, que fiquei indignado ao ler.
«…Num belo dia de sol compareceu uma equipa de 10 ou doze técnicos especialistas em matança de árvores,... no lugar de Bujanda da freguesia de Novelas Concelho de Penafiel. Foi a última árvore centenária de tantas, que esta estrada possuía nesta freguesia, durante longos anos, mandadas plantar por Salazar. Pobre gente, esta que correm sem analisar, e que destroem sem saber o quê. Vir à nossa terra destruir!!! Vão todos para o inferno, e que os demónios façam aos mandões, o mesmo que fazem às árvores. Não vou estar enganado ou raramente ter dúvidas, mas penso e enquanto o país viver assim com formas assassinas».
Então, faço o meu comentário, baseado em pesquisa e estudos para que fique claro!
Há 50 anos atrás, nem sem­pre que se decidia plan­tar uma árvore em ambi­ente urbano, se tomavam decisões acer­tadas, resultando em alguns casos após a plantação, num fraco vigor vegetativo, visto as espé­cies não serem a esco­lha apropriada para o local. O tama­nho da árvore adulta, poderia em algumas situações, ser exces­sivo para o espaço ou a árvore podia não estar adap­tada para o ambi­ente onde era colo­cada. Todos sabemos que o abate de árvo­res deve ser evitado, e quando feito que seja de modo a mini­mi­zar o impacto emo­ci­o­nal, visual, ambi­en­tal e pelas razões cer­tas. Hoje até é diferente, já se fazem estudos e não é por isso errado, nem chocante, nem sequer inde­se­jado, que por vezes se decida pelo abate de uma árvore, quando está em perigo de queda. Afi­nal, a árvo­re foi ava­li­áda por uma empresa de arbo­ri­cul­tura, perfeitamente habi­li­tada para rea­li­zar este tipo de tra­ba­lho. A árvore teria que ser aba­tída devido a proble­mas de deficiência estrutural má formação de tronco, inclinação acentuada, afectada por podridão e problemas bio­me­câ­ni­cos, prin­ci­pal­mente ao nível da parte aérea (das per­na­das e ramos), e não apresentava uma possível consolidação no solo. É ver­dade que, tec­ni­ca­mente, a opção pelo corte da árvo­re não foi cho­cante ,e isso ficou claro. Tratou-se de um abate necessário., caso contrário poderia eventualmente neste Inverno cair. Não se inter­rom­peu, desta forma, a con­tri­bui­ção que a árvo­re tinha em ambi­ente urbano para ame­ni­zar o clima, cap­tu­rar polui­ção, redu­zir o ruído, embe­le­zar a pai­sa­gem e forne­cer o habi­tat a aves ou outros animais. Mas, o que foi noti­ci­ado foi exactamente o contrário. “A árvore era um ex-líbris!” “Salazar mandou-a plantar!”. Naturalmente Salazar foi um herói! “Vão todos para o inferno…!” 
Como disse?
Esta gente está doida!!!
A minha opi­nião pes­soal, quanto aos moti­vos apre­sen­ta­dos para o abate estes foram mais que suficientes. Garan­tiram a con­fi­ança das pes­soas que circulam na estrada Nacional 106 e evitaram a sua consequente queda e risco para pessoas e bens. Afinal o herói do “pensamento… morto num dia,” tornou-se no anti-herói, até porque não se lembra como já foi publicado em outros artigos, do que fez! Deveria sim, ser expressamente proibido e pedidas responsabilidades a quem andou a espetar prégos em árvores na freguesia para fixar propaganda política!. É, por isso, que com dupla tris­teza acom­pa­nho comento e critíco observações sem o mínimo sentido. Mas com um enorme sentido de responsabilidade, apesar de jovem com 17 anos, tenho von­tade de inter­vir naquilo que afecta a vida dos cidadãos e sei muito bem qual o papel das árvo­res. Como con­tri­buem para a qua­li­dade de vida e bem-estar das pes­soas que cada vez é mais necessário.
Às vezes é necessário perder uma árvore, para ganhar uma comu­ni­dade que luta pelas árvo­res.
Veja quantas árvores já foram plantadas na freguesia!
Haja espe­rança.
Jovem - M.F.M.C.B.M.
30 de Setembro de 2010




domingo, 26 de setembro de 2010

ARMANDO CARLOS MOREIRA LOPES



Um amigo e colega de trabalho

No dia 24 de Setembro de 2010, faleceu Armando Carlos Moreira Lopes, funcionário da Câmara Municipal de Penafiel e residente afirmado em Novelas.
Alem de um colega de trabalho e amigo com quem muito conversava sobre alguns assuntos privados era também um lutador, e se por um instante Deus esquecesse de que somos uma marionete de pano e nos presenteasse com mais um pouco de vida na terra, possivelmente não deixaria que fizéssemos o que nos prejudicaria, e definitivamente pensaria em tudo o que nos fizeram e nos fazem.
O Armando mesmo assim conseguiu suportar até aos seus últimos dias, o desfavor de todos por quem se empenhou e por eles deu a cara, bem como pelo vício que nunca o abandonou.
Por tanto pensarmos no que sentíamos pelo abandono dos amigos que estavam mais próximo, cada vez mais percebia-mos que os momentos de história que realizamos juntos, foram mais grandiosos do que pequenos.
Trabalhamos, mas também nos rimos muito e neste momento as palavras perderam o sentido na saudades que sentirei, isto até porque hoje não é apenas a última vez que verás as pessoas que conviveram contigo no trabalho, mas o início de uma vida de convivência de amigos eternos.
Contigo descobri que não há homem sem homem, nem homem mais homem do que outro, é verdade!
Todos teremos o mesmo fim.

Novelas 26 de Setembro de 2010
 



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DVD - 20 "ANTERO DE QUENTAL".

LEMBRAR O POETA!
CAFÉ SOCIEDADE EM PENAFIEL.

Hoje no Café Sociedade em Penafiel recordou-se GUERRA JUNQUEIRO o Novelartecine esteve presente e participou e recordou o Poeta.
Foi escrito em 1896… mas é de uma actualidade… este transmontano, se fosse vivo, o que diria hoje?
Texto de Guerra Junqueiro – Pátria – 1896
Um texto de Guerra Junqueiro

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]


UM POEMA INTERPRETADO POR AFONSO LEAL.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

CANTA CRISTINA.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.”

Guerra Junqueiro, “Pátria”, 1896.

UM POEMA INTREPRETADO POR BRUNA MEIRELES.
REGRESSO AO LAR.

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!

SONETOS.


“Não é lisonjeando o mau gosto e as péssimas idéias das maiorias, indo atrás delas, tomando por guia a ignorância e a vulgaridade, que se hão-de produzir as idéias, as ciências, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporânea precisa”

Antero de Quental


O PALÁCIO DA AVENTURA.

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura.
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

À VIRGEM SANTÍSSIMA.

(Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia)
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade
É que eu vi teu olhar de piedade

E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,

Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira
Antero de Quental.


À BEIRA MAR

Bruna Meireles


Oh! Vem Maria! Sobre a rocha erguida
Em asp'ra costa, sobranceira ao mar,
Vamos sósinhos ver as brancas ondas
Sobre os rochedos, em cachões, saltar!

Ali, bem juntos, ao cahir da tarde,
De mãos trocadas a fallar de amor,
Quero, ao contar-te mil segredos d'alma,
Ver-te nas faces virginal pudôr.

É proprio o sitio, é propicia a hora,
Incerta, dubia entre sombra e luz;
Já descem trevas pelos fundos vales,
Inda algum brilho sobre o mar reluz:

Inda no dorso das inquietas ondas
Dourada fita tremeluz, além;
Mas, já ao longe, da campina os viços,
Envolvem sombras que dos montes vêm.

Gigante immenso de esplendor e brilho,
O sol, um instante, viu-se alli nutar;
Depois cançado, declinando rapido
A lassa fronte repousou no mar.

Semelha ao entrar-lhe pelo seio tumido,
Que de mil fógos inda foi tingir,
Medalha de ouro, que em caldeira immensa,
A pouco e pouco visse alguem fundir.

Em tanto a sombra vae descendo os montes
E envolve as terras mysterioso véo;
Já se divisa, vergonhosa e timida,
Pallida estrella tremular no céo:


Como em teu seio, pura virgem, nasce
Ligeira magoa de fugaz pezar,
Que vae crescendo, e transmudada em lagrimas
Te vem dos olhos nos crystaes brilhar:

Como nos brota dentro de alma, e lavra
A pouco e pouco no veloz crescer,
Algum affecto que em paixão tornado
Nos vem no peito com fulgor arder:

Assim da estrella nasce o brilho, e cresce
A pouco e pouco pelo céo de anil;
Ponto luzente, no começo apenas,
Por fim brilhante, entre saphiras mil.

Soidão callada pela terra alarga-se
Prelúdio augusto da nocturna voz;
Em doce enlevo, scisma o homem statico
Em Deus, comsigo meditando a sós.

Hora saudosa de incerteza mystica,
De lucta harmonica entre sombra e luz.
Por ti nos desce sobre o seio ardente
A santa crença que p'ra Deus conduz!

Hora em que é grato no regaço amigo
De alguma esperança de melhor porvir,
Olvidar magoas de um presente incerto,
E, esp'rando, e crendo, n'essa fé dormir.

Em que amor gera dentro de alma os laços
Que as almas ligam com estreito nó,
E que no arroubo de amoroso rapto
Funde dois sêres n'uma vida só.

E eu tambem quero sentir n'alma os intimos
Celestes gosos que esta hora tem;
Em livro aberto lêr um nome augusto
Que em lettras de ouro vejo escripto além.

E no regaço da mulher amada,
Que é minha esp'rança de melhor porvir,
Quero estas magoas ir depôr e apenas
Guardar um peito para amor sentir.

E antes que as terras illuminem fógos,
Com a luz divina que o Senhor lhe deu;
E antes que morram esses brilhos ultimos
Do sol nas dobras do nocturno véo;

Quero ao soido gemedor das ondas
Casar as magoas d'este immenso amor,
Ardente e puro, como aquelles lumes
Candentes fócos de vivaz fulgor.

Quero nas horas do crepusculo ameno
Sobre o rochedo sobranceiro ao mar,
Aos pés da virgem que escolheu minha alma
Ler-lhe nos olhos confissões sem par.

Figueira da Foz, 1860.

A...

André Ramos

Nome, que não se diz; nome que não se escreve;
Quem vai meter num som o mundo, a imensidão?
O amor, que nome tem? Real, jamais o teve...
Escrever! Pois é pouco um livro - o coração?!...

Nem visão, nem real: amor! Amor somente!
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor -?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que há-de brotar, acaso, o Deus-Senhor

Somente amor... Somente?! E pouco esta palavra?
Duas sílabas Só - em pouco um mundo esta -Loucos!
Mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incêndio a arder, tão pouco inda será?

Gota, que alaga o mundo! Átomo, e após, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pôs!
Foi Deus! De Deus me vem... e a Deus medir não posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.

E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Há-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! Hás-de escutar, que eu vou falar d'amor!

Falar d'amor?!... Se ele e como uma essência,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocência,
Que inda se ignora e, p'ra sorrir, se esconde...

Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos vê-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...

Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...

Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?

Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouça tudo?
Se e mistério encoberto, como vê-lo?

Novela, 23 de Setembro de 2010.